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Thursday, February 15, 2007
Weekend en Guatemala, de Miguel Angel Asturias
Durante a minha viagem pela Guatemala Centro-América percorri grande parte do país, definindo o itinerário do dia seguinte na véspera à noite, com o mapa à frente, o Lonely Planet e as indicações dos sempre simpáticos guatemaltecos.

No hotel de Nitum, perto do lago com o mesmo nome, na zona de Tikal, o seu proprietário sugeriu-me diversos autores e seus livros para melhor conhecer a cultura guatemalteca.
Segui a sua sugestão e comprei em Guatemala City (ou Guate, como é tratada pelos nacionais) na competente livraria Sohos situada na Zona 10 (também conhecida como Zona Viva) o livro Weekend em Guatemala, do Nobel Miguel Angel Asturias.
Numa edição da Editorial Piedra Santa, diversos contos são aqui apresentados dos quais Weekend em Guatemala é o primeiro.
Escrito em 1955, um ano após a deposição do governo do Coronel Arbenz, regime de esquerda/extrema-esquerda do qual Miguel Angel Asturias era apoiante, um dos seus "doutrinadores" e embaixador em El Salvador. Ao longo da sua leitura, sentimos nos diversos contos a sua raiva contra os apoiantes de deposição do seu governo, os americanos.
Pondo de lado a questão política e o seu alinhamento, é um livro que duma maneira muito própria descreve o povo guatemalteco e o seu papel peão numa guerra global.

Embora estejamos a falar de um prémio Nobel da literatura, confesso que não fiquei muito convencido, levando-me cada vez mais a questionar a politização destes prémios.
De qualquer maneira está editado entre nós, não sendo necessário passar as dificuldades que eu tive na leitura na edição em castelhano, que continham termos muito próprios da Guatemala, fazendo-me ás vezes perder em alguns parágrafos.
Posted at 12:07 pm by Lights
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Thursday, February 08, 2007
No passado sábado assisti ao meu primeiro concerto de 2007. Foi no excelente espaço do Jardim de Inverno do Teatro S. Luiz, onde já tinha visto Sérgio Godinho numa noite memorável.
Senti-me recuar no tempo ao ouvir músicas do Zeca Afonso, mas bem presente pelas orquestrações e voz de Cristina Branco.

Sim, a música era de Zeca Afonso, mas o ritmo outro.
Já não se distinguia a música de intervenção de outros tempos por motivos bem discutíveis, dependendo das convicções politicas de cada um, para dar lugar a uma harmonia de sons - Alexandre Frazão (bateria), Mário Delgado (guitarras acústicas e eléctricas), Bernardo Moreira (contrabaixo) e Ricardo Dias (piano e acordeão) - com a voz de Cristina Branco.
A não perder durante o mês de Fevereiro, sextas e sábados às 24h00 no Teatro São Luiz Cristina Branco a cantar Zeca Afonso.

E, como diz Cristina Branco, "Sem sentimentalismos, sem rodeios, como o Sr. José Afonso era. O Zeca, o nosso Zeca, porque faz parte do imaginário contestatário, do gira-disco, do canto amigo. O Zeca foi e será sempre um exemplo de simplicidade, de convicção (mesmo quando dizia que nem sempre gostava de cantar!). É assim o amigo da minha adolescência, o amigo do meu canto, da minha busca pessoal. Não trazemos nada de novo, vimos apenas lembrar. Até logo, companheiro!"
Posted at 11:49 am by Lights
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Friday, February 02, 2007
O Labirinto das Azeitonas, de Eduardo Mendonza
Depois de Flannery O'Conner, mais um novo escritor para mim, também uma agradável surpresa.

Vindo da nossa vizinha Espanha, o livro do escritor Eduardo Mendonza é nos dado por uma edição da "Casa das Letras", referindo na capa os prémios recebidos pela obra: Prémio da Critica", "Primeio Lire" e "Prémio Cidade de Barcelona".
No início da minha leitura senti uma pequena resistência, mas logo fui apanhado em plena e forte corrente que não mais me largou enquanto não o terminei de ler .
Confesso que achei a parte final um pouco atabalhoada, menos conseguida e logo "matando" um pouco o livro, mas é apenas a minha opinião,
Cativante, trama envolvente, excelente humor embora por vezes roçando por exagero o absurdo (e perdendo um pouco a sua força), é um livro a que só posso sugerir a sua leitura.

Revelo que fiquei convencido a melhor explorar outros títulos já editados entre nós de Eduardo Mendonza.
Posted at 11:01 am by Lights
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Thursday, February 01, 2007
por detrás dos Montes - Teatro Meridional
Há coincidências felizes. Esta é uma delas.
No passado sábado, fui assistir à peça "por detrás dos Montes", produzida pelo Teatro Meridional.
Num excelente espaço, em que nos sentimos bem recebidos, quer pela simpatia do "pessoal", quer pelo próprio espaço de espera em que se pode beber um café ou chá, calmamente.

A peça ia ser dedicada a uma região de Portugal que o leitor já deve imaginar: Trás-os-Montes, a minha terra natal.
Sem querer "decompor" muito a peça já que a mesma está devidamente comentada no site do Teatro Meridional e do qual aqui vou colocar um excerto convidando-vos à leitura integral em http://www.teatromeridional.net/, porém não quero deixar de salientar a qualidade do que vi:
Começando por Fernando Mota e um som/música como nunca vi numa peça de Teatro; passando pelas Marionetas de Eric Costa que estavam com umas expressões impares; as interpretações intensas de Carla Galvão, Carla Maciel, Fernando Mota, Mónica Garnel, Pedro Gil, Pedro Martinez e Romeu Costa; para terminar em dois nomes que explicam em muito toda esta qualidade: Miguel Seabra e Natália Luíza.
Abrangendo tradições e realidades de Trás-os-Montes, fica a minha recomendação para não perderem um dos melhores acontecimentos teatrais da actualidade.
SOBRE O PROJECTO PROVÍNCIAS O Projecto Províncias – presentemente um dos caminhos artísticos do Teatro Meridional - caracteriza-se pela criação de espectáculos que têm como conceito de partida a procura da especificidade e o respeito pela singularidade identitária que marca as diferentes regiões de Portugal. São trabalhos que têm como características artísticas essenciais a não utilização da palavra como veículo principal de comunicação, e o facto de ter música executada ao vivo.
Por Detrás dos Montes é o segundo trabalho deste Projecto, que se deteve primeiramente na região do Alentejo, através do espectáculo Para Além do Tejo (Prémio Nacional da Crítica 2004). Debruçámo-nos agora na região de Trás-os-Montes, tendo como ponto de partida referencial o distrito de Bragança, no Nordeste Transmontano.
Dado o enfoque cultural e por motivação artística, a directora do Teatro Municipal de Bragança, Helena Genésio, e a C.M. Bragança, abraçaram o projecto tornando-se nossos cúmplices e co-produtores.
Esta aposta artística ganhou ainda maior dimensão com a participação do Teatro Nacional S. João que, na pessoa do seu director, Ricardo Pais, se afirmou também como parceiro activo desta produção.
Procurámos manter a mesma equipa base que concebeu e criou o espectáculo anterior, de modo a possibilitar a potenciação de códigos comuns e a organicidade interna da equipa. À semelhança do que aconteceu no primeiro espectáculo, as principais fases do processo de trabalho foram testemunhadas em registo vídeo e fotográfico, que servirão como memória da construção do espectáculo e como pretexto de problematização e questionamento desta arte que queremos manter activa e partilhada.
SOBRE O ESPECTÁCULO Depois da “viagem” construída em vários lugares do mundo, somos hoje na exacta territorialidade do nosso espaço, estranhos de nós, e percebemos que pouco olhámos para nos ver, pouco sabemos da nossa diversidade identitária. Este espectáculo visa falar de nós, saber de nós, aproximar-nos de uma matriz cultural que, embora comum, sempre esteve por detrás do granito dos Montes e que, sendo naturalmente permeável às exigências do mundo, mantém especificidades muito singulares. Tal como no espectáculo anterior, não tivemos a veleidade de sustentar o trabalho numa recolha de informação antropológica, histórica, narrativa, mas antes deixarmo-nos contaminar por isso tudo e, pela observação sensorial, pelas sonoridades, pela paisagem, pelos sotaques, pela musicalidade, pelos rostos e pelas estórias. Formulámos então, subjectivamente, a forma como fomos tocados pelo Espírito do Lugar. O que escolhemos tornar narrativa cénica, primeiro intuída, e depois encontrada nos corpos e entendimento dos criadores.... (continua)
Posted at 09:06 pm by Lights
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Wednesday, January 24, 2007
Looking back.....
Retirado da excelente colectânea Pioneer Summer Lounge (que só posso mesmo aconselhar a sua compra), o tema Lola de Shapeshifters é um dos que mais se destaca.

Quando ouvimos pela primeira vez, tentamos perceber o que é mais forte: a melodia, a voz, a conjugação dos diferentes sons, a sensação de algo retro... enfim, sentimos que estamos perante mais do que uma mera música.
Espero que a apreciem tanto como eu.
Deixo-vos um excerto....que após o ouvir ficamos de facto, "a different person"

Oooooh yeah
Looking back, I know I was walking around in disguise, In disguise, I was just as lost and I needed a guide, And the moment that you came to change my life, Use life burn my heart and make me smile, Coz' you and I know that,
Chorus: I'm a different person Yeah, Turn my world around, I'm a different person Yeah, Turn my world around, I'm a different person Yeah, Turn my world around.
Things I had, All fading away a minute and I, Feel alive, You have twisted all of my troubles inside, You've refilled my heart and stopped me drown, Coz' you and I know baby,
Chorus: I'm a different person Yeah, Turn my world around, I'm a different person Yeah, Turn my world around, I'm a different person Yeah, Turn my world around (Turn my world around), I'm a different person Yeah, Turn my world around.
Ooooooh Use life burn my heart and make me smile, And you and I know baby, Turn my world around, Oh yeah,
Chorus: I'm a different person Yeah, Turn my world around, I'm a different person Yeah, Turn my world around, I'm a different person Yeah, Turn my world around.
Posted at 09:57 pm by Lights
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Wednesday, January 17, 2007
Um bom homem é dificil de encontrar, de Flannery O'Connor
"Um bom homem é dificil de encontrar" É com este título que se inicia a colectânea de contos da escritora norte-americana Flannery O'Connor. Editado pelas edições Cavalo de Ferro e com a particularidade de ter a tradução de Clara Pinto Correia, dez contos são-nos apresentados.

Dez historias passadas no interior rural dos Estados Unidos da América em que o desencanto, a frieza e a violência das pessoas contrasta com uma descrição bela da paisagem, onde ilusoriamente pensamos que nada se passa. Puro engano.
Começando com o conto "Um bom homem é difícil de encontrar" em que somos encarados com um nível de violência invulgar (fez-me lembrar Tarantino!), passando para o seguinte "O Rio" onde a inocência de uma criança desagua numa tragédia dolorosa, ou mesmo "A gente sã do campo" onde mais uma vez tudo termina num dos piores cenários possíveis, este conjunto de contos espelha uma visão desencantada e sem esperança de O'Connor no ser humano, capaz de tudo fazer.
A ler e aguardar pelo próximo livro já que as Edições Cavalo de Ferro nos dizem que vão publicar a totalidade das suas obras e obedecendo à cronologia das edições originais.
Exemplo a seguir por outras editora, em que publicam um ou dois livros de um determinado autor, deixando-nos com uma frustração enorme de não podermos ler outras obras desse escritor. Exemplos? Tantos! Dou apenas um: Charles Bukowsky.
Termino apenas com um reparo a uma gralha infeliz no final da página 16. Numa edição tão importante é essencial corrigir na próxima reedição.

Flannery O"Connor por Isabel Coutinho (Mil Folhas):
Quando o padre James McCown fez a sua primeira visita a Flannery O"Connor, pediu a uma mulher que passava na rua informações sobre o local onde ficava a quinta Andalusia onde a escritora vivia. Essa residente de Milledgeville descreveu-lhe O"Connor da seguinte maneira: "Uma rapariga muito simpática [... que] vem à missa todos os domingos. Mas aquelas histórias que ela escreve! São terríveis. É o que toda a gente diz. Eu tenho medo de chegar perto dela. Pode lembrar-se de me meter numa das suas histórias." Este episódio é um dos que Jean W. Cash, professor de Inglês na James Madison University, conta no livro "Flannery O"Connor - A Life" (ed. The University of Tennessee Press), que representa mais de dez anos de investigação sobre a obra e a vida daquela sobre quem o crítico literário Harold Bloom escreveu que "deve ter sido a mais original entre os contistas americanos depois de Hemingway". "Um Bom Homem É Difícil de Encontrar", o primeiro volume dos contos de Flannery O"Connor ("A Good Man is Hard To Find" publicado nos EUA em 1955), foi editado este Verão pela Cavalo de Ferro. Não é a primeira vez que contos de Flannery O"Connor são publicados em português, mas é a primeira vez que este livro o é. A tradutora da obra é a escritora Clara Pinto Correia, e já tinha sido ela a organizar e a traduzir a "Antologia Indispensável" de Flannery O"Connor que a Dom Quixote publicou em 1996, com uma selecção de apenas seis contos da obra completa da autora. "Um Bom Homem É Difícil de Encontrar" reúne dez contos e vários são autênticas obras-primas. Basta ler os títulos para se ficar com curiosidade de ler. Ora vejam: "A Vida Que Salvar Pode Ser a Sua" (a história de uma velha, de uma jovem muda e um homem "para quem certas coisas têm mais valor que o dinheiro"); "O Preto Artificial" (a viagem de Mr. Head e de Nelson, o rapaz que tinha a certeza de que reconheceria os pretos assim que visse um); "Um Encontro Tardio com o Inimigo" (a atribulada ida do general Sash, de 104 anos, à celebração solene da licenciatura da sua neta...) e os dois magníficos "A Pessoa Deslocada" (uma história com pavões e com uma família de refugiados da Polónia que foi trabalhar para uma quinta sulista...) e "A Gente Sã do Campo", a história de Hulga, a rapariga que tem uma perna de madeira, e do rapaz das Bíblias, que tem trechos como este: "A rapariga doutorara-se em Filosofia, e isto deixara Mrs. Hopewell completamente desorientada. Pode dizer-se: "A minha filha é enfermeira", ou "A minha filha é professora" ou até "A minha filha é engenheira química". Mas não se pode dizer: "A minha filha é filósofa." Isso era uma coisa que acabara com os Gregos e os Romanos." O primeiro conto, aquele que dá o nome ao livro, é, nas palavras de Harold Bloom, "uma esplêndida introdução" à obra desta autora norte-americana. No livro "Como Ler e Porquê?" (Ed. Caminho) descreve-o assim: "Uma avó, o seu filho, a nora e os seus três filhos estão numa viagem de automóvel quando encontram um criminoso evadido, o Inadaptado, com os seus dois ajudantes assassinos. Vendo o Inadaptado, a avó revela estupidamente a sua identidade, marcando assim o destino da sua família e o seu. Enquanto as pessoas da família vão sendo levadas para serem mortas, a velha implora ao Inadaptado a salvação, mas o assassino, que é um teólogo natural, é uma das obras-primas de Flannery O"Connor. Jesus, declara o Inadaptado, "desequilibrou tudo" fazendo ressurgir os mortos, num universo "sem prazer mas com crueldade". Perdida num devaneio, a avó aterrorizada toca o Inadaptado murmurando: "Tu és um dos meus meninos. És um dos meus filhos." Ele recua, dispara três vezes sobre o peito dela e profere o seu epitáfio: "Teria sido uma boa mulher se tivesse estado lá alguém para a matar em cada segundo da vida dela." O conto e quem o conta reúnem-se aqui, pois o Inadaptado exprime claramente algo de agressivo e irónico na própria Flannery O"Connor." "Ela descreve-nos uma velhinha hipócrita e banal e um assassino que é, na sua visão, um instrumento da graça católica. Esta ideia quer ser, e certamente é, ofensiva porque, enquanto malditos, nós sentimo-nos ofendidos. Poderíamos ser boas pessoas, pensa Flannery O"Connor, se houvesse alguém para nos matar em cada minuto das nossas vidas. (...) Penso que a melhor forma de lermos os seus contos é começar por reconhecer que pertencemos aos seus malditos, e a partir dessa consciência apreciar a sua grotesca e inesquecível arte narrativa", conclui Bloom.
A vida dos escritores não interessa Robert Giroux, um dos seus editores, na introdução que fez ao livro que reúne todos os seus contos ("The Complete Stories", ed. Farrar, Stauss and Giroux), conta que ela reescrevia muito e que com o tempo escrevia cada vez melhor. Mandou-lhes no final de 1952 um conto, "Um Bom Homem...", que era uma obra-prima, mas seguiram-se outros muito belos, "O Rio", "A Vida Que Salvar Pode Ser a Sua", "A Pessoa Deslocada", "A Gente Sã do Campo". "Catherine Carver, que tínhamos a sorte de ter como editora", escreve ele, "e que trabalhou muito com Flannery naquele período, vinha trazer-me cada novo conto ao meu gabinete sempre com o mesmo reparo: "Espera só até leres este!" [...] Publicámos o livro "A Good Man His Hard to Find" em Junho de 1955. Lembro-me de enviar as provas dos contos para Evelyn Waugh e do nosso divertimento à sua reacção quando nos disse: "Se estas histórias realmente foram escritas por uma jovem, são de facto notáveis"." Quando a revista "Time", em 1955, publicou uma crítica ao livro de contos "Um Bom Homem É Difícil de Encontrar", Flannery recebeu algumas cartas de homens que não tinham passado do título: "Pensa realmente que um homem bom é difícil de encontrar? Tenho 31 anos, sou solteiro, trabalho como um cão...", conta W. Cash na biografia. Numa carta que enviou a Ted Spivey, Flannery conta o que lhe aconteceu numa conferência na Universidade de Wesleyan depois de ter lido o conto "Um Bom Homem...": "Estava lá um casal de professores e um deles começou a colocar-me questões. "Miss O"Connor", disse ele, "porque é que o chapéu de O Inadaptado é preto?" Eu respondi que a maioria dos homens do campo na Georgia usam chapéu preto. Ele pareceu muito desapontado. E disse a seguir, "Miss O"Connor, o Inadaptado representa Cristo, não é?" Não representa, não, disse eu. Ele olhou-me devastado. "Bem, Miss O"Connor", disse ele, "qual é o significado do chapéu de O Inadaptado?" Eu disse-lhe que era para tapar a cabeça; e a seguir ele deixou-me em paz." Para Flannery O"Connor, o conhecimento da vida dos escritores não acrescentava grande coisa às suas obras. Sobre a sua biografia, dizia que os seus leitores futuros teriam pouco interesse numa "vida passada entre a casa e as capoeiras no quintal". No livro de Jean W. Cash estão transcritas as palavras de Paul Engle, seu orientador no mestrado de escrita criativa que fez na Universidade de Iowa: "Um dia ela entrou pelo meu gabinete e falou. Eu não percebi nada do que ela estava a dizer, nem uma única sílaba. Parecia-me que dizia "Aaaaraaaraaarah". Meu Deus, pensei para mim, esta jovem é débil mental [...] Finalmente, disse, Desculpe-me, o meu nome é Paul Engle. Dei-lhe um bloco de notas - acreditem, isto é verdade - e pedi-lhe para ela escrever o que me estava a dizer. E ela escreveu: "O meu nome é Flannery O"Connor. Sou de Milledgeville, Georgia. Sou escritora." Ela não escreveu "Eu quero ser escritora". Ela disse: "Sou escritora"." Mas para os seus conterrâneos ela seria sempre tratada como "a filha de Miss Regina". Mas via isso sempre com muito humor. Aos seis anos treinou uma galinha de maneira a que ela andasse em marcha-atrás. Mais tarde disse numa entrevista: "Quando tinha seis anos tive uma galinha que andava para trás e que apareceu na "Pathé News". Eu aparecia junto à galinha. Eu estava lá só para a ajudar, mas foi o ponto mais alto da minha vida. Tudo o que aconteceu depois foi um anticlímax." No álbum "American Writers at Home", dedicado às casas de vários escritores norte-americanos, podem ver-se várias fotografias de Andalusia, a quinta onde viveu durante anos com a sua mãe Regina O"Connor, rodeada de árvores e de aves. Logo à entrada da casa existem cadeiras de baloiço de madeira branca, ali sentada, Flannery e os seus convidados podiam ver a propriedade em toda a sua extensão. Ela escrevia no seu quarto, que ficava no rés-do-chão, numa máquina de escrever pousada na secretária junto à cama [ver foto da capa do Mil Folhas]. Escrevia todos os dias e enquanto a doença lhe permitiu. "O seu Sul é um mundo a cair aos pedaços, uma terra de assassinos e inadaptados e loucos, crianças tontas e mulheres só com uma perna, ladrões e analfabetos e profetas, brancos e negros. Que ela tenha escrito tanto e tão bem parece, olhando em retrospectiva, quase um milagre", escreve J.D. McClatchy em "American Writers at Home".
Contos para ler sem interrupção Uma jornalista perguntou-lhe se trabalhava numa quinta. Ela respondeu que não, disse que era escritora. "Não faça de mim uma rapariga do campo. A única coisa que eu sei sobre a terra é que está por baixo de mim." A quinta, Andalusia, era mantida pela sua mãe Regina com braço de ferro. Ali trabalhavam negros e também uma família de refugiados polacos (a inspiração para "A Pessoa Deslocada", mas a realidade não é igual à ficção, a esta família não aconteceu o mesmo que à do conto!) Às vezes, Regina, a mãe, adormecia a ler os livros da filha. Flannery costumava dizer que escrevia contos para a mãe ter tempo para os ler até ao fim sem meter outras coisas pelo meio.Os seus contos, narrativas estranhas e irónicas, com inícios que parecem banais mas acabam em finais inesperados, em que as pessoas fazem más escolhas e há coincidências, não envelhecem. A mãe teria gostado que Flannery escrevesse um "best-seller" como "E Tudo o Vento Levou". Em Abril de 1958 fez com a sua mãe uma peregrinação à Europa, via Irlanda, Paris, Lourdes, Roma e Lisboa, organizada pelo arcebispado de Savannah. Quem pagou a viagem foi a sua prima, que queria que ela se banhasse nas águas quentes de Lourdes. Numa carta para a sua amiga Betty Hester escreveu que sempre tinha desejado ir a Lourdes, que talvez lá conseguisse ir um dia e rezar uma novena que fizesse com que acabasse o romance que estava a escrever há 27 anos. Noutra carta dizia que a viagem ia ser um "pesadelo cómico" e que "não estava a pensar tomar banho nenhum porque era mais uma daquelas pessoas que podia morrer pela religião do que tomar um banho por ela". Acabou por se banhar nas águas de Lourdes ("porque na altura parecia ser aquilo que esperavam de mim"). Acabou por conseguir terminar o seu romance. A editora Cavalo de Ferro vai publicar as Obras Completas de ficção desta autora norte-americana. O seu romance "Wise Blood" (1952) será editado na Cavalo de Ferro no primeiro semestre do próximo ano; um outro livro de contos que foi publicado postumamente em 1965, "Everything That Rises Must Converge", vai sair também em 2007 e o romance "The Violent Bear it Away" (que em tempos foi publicado em português com o título "O Mundo é dos Violentos" na ed. Fragmentos) será o seguinte. Mais tarde publicarão mais contos, "The Geranium: A Collection of Short Stories".
Isabel Coutinho , Público Mil Folhas
Posted at 11:47 am by Lights
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Tuesday, January 16, 2007
Durante as duas primeiras semanas de 2007, percorri um país que se revelou diferente do que o que tinha lido sobre ele, no entanto mais semelhante com o que eu imaginara e me fizera escolhe-lo para destino da minha viagem.

Estou a falar de Guatemala, Centro América. (acrescento Centro América, porque é como os Guatemaltecos se gostam de geo referenciar, quiçá devido a reminiscências de um passado histórico)
Não obedecendo a qualquer itinerário pré definido, embora sabendo que me seria impossível deixar de visitar o Lago de Atitlan, denominado pelo "lago mais bonito do mundo" por se encontrar rodeado de montanhas de origem vulcânica, Antigua, cidade colonial ou Tikal, os templos Maias em plena selva tropical, viajei por zonas menos turísticas, mais intensas como experiência do país Guatemala e sua gente.
Senti-me um viajante em Tzununá, Todos os Santos Chuchumaten, Nabaj, Chajul, Flores ou Rio Dulce, onde pude conversar e conhecer melhor os indignas, os guatemaltecos não indignas e os estrangeiros que se renderam à Guatemala e por aí vivem. Todos muito simpáticos e abertos, gostando de partilhar a sua realidade connosco.
Nunca foi sentido qualquer perigo ao conduzir após o pôr-do-sol, ou o facto de dar boleia aos locais que se deslocam distâncias imensas a pé, descendo e subindo montanhas, carregados com bilhas de água, mais elas, ou com lenha, neste caso eles ou crianças.
Partilho convosco o que senti na Guatemala, quer pela introdução acima escrita, quer visualmente, pelo conjunto de fotografias que tirei, presentes no Interzone Photoblog.
Espero que gostem e que com elas eu consiga transmitir toda a beleza e paz que senti neste país.
Caros Amigos, Guatemala vista pela objectiva de Lights!
Posted at 10:47 am by Lights
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Thursday, December 28, 2006
A Ilha dos Porcos, de Mo Hayder
Por vezes temos que arriscar e ler um livro de um autor desconhecido, para mim claro.
O eleito, ou neste caso, a eleita foi Mo Hayder e o seu livro " A Ilha dos Porcos".
Embora as edições Gótica já tivessem editado outros livros dela (O Homem da Meia-Noite e Tóquio) este foi o primeiro que li... e talvez o ultimo.
Não por a historia não ser interessante, não pela forma como o escreveu não ser cativante.
Apenas fica aquela sensação de que se fosse um outro escritor a pegar nesta história, algo bem mais conseguido seria realidade.
Mesmo assim, para uma história em que tudo vai ficar dependente da ultima página (literalmente), não deixa de ser uma opção para quem gosta de mistério, um pouco de terror... e criaturas estranhas.

O jornalista Joe Oakes ganha a vida a desmascarar fraudes sobrenaturais. Como céptico que é, acredita que tudo tem uma explicação racional. Porém, quando visita uma reservada comunidade religiosa numa remota ilha escocesa, tudo o que tem como certo é posto em causa. As questões acumulam-se: porque foi a comunidade acusada de satanismo? O que aconteceu ao seu guia espiritual, o Pastor Malachi Dave? E, mais importante ainda, por que motivo ninguém fala da estranha aparição vista a vaguear nas praias da Ilha dos Porcos? O confronto, e as consequências sangrentas, é tão catastrófico que obriga Oakes a questionar a natureza do mal, e se pode ou não ser responsável pelo terrível crime prestes a acontecer. Neste assombroso novo livro, Mo Hayder desafia os leitores a enfrentar os seus medos mais íntimos e a olharem para lá da banalidade que jaz subjacente à normalidade do dia-a-dia. A Ilha dos Porcos aborda as coisas inomináveis que as pessoas são capazes de fazer umas às outras. Prepare-se para uma leitura aterrorizadora.
Posted at 11:01 am by Lights
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Wednesday, December 27, 2006
As imagens da Interzone... e um excelente 2007!
2007 vai ser um ano com novidades na Interzone.
Depois de ter iniciado em 27 de Julho de 2004 este blog, chegamos ao fim de 2006 com mais de 58.000 visitas.
Os livros que leio, as musicas que ouço, os filmes que vejo, a vida que por mim passa... são estas minhas vivências que aqui partilho e que alguns visitantes já ganharam o hábito de lerem e, por vezes, comentar.
Mas voltando às novidades:
Dois melhoramentos já estão disponíveis.
O primeiro, mais visível, é o Photoblog da Interzone onde podem ver fotografias tiradas por mim. Na barra da direita, clique em cima da imagem que tem um olho (Lights eye??).  Em seguida será aberta a página de entrada do Interzone Photoblog com a fotografia mais recente.
Um outro melhoramento é a questão de algumas imagens que aqui tenho colocado ficarem indisponíveis passado pouco tempo.
Todas as imagens colocadas nos novos posts vão ficar sempre disponíveis resultado de um novo sistema de armazenamento de imagens que passei a utilizar.
Para 2007 vamos voltar a ter as "Polls" (votações), vai ser incluído um directório de sites que referencia a Interzone, e outras surpresas.
Os meus votos de um excelente 2007... e obrigado pela Vossa companhia
Posted at 02:56 pm by Lights
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Saturday, December 23, 2006
Caros visitantes da Interzone,
Os meus votos de um Santo Natal passado junto dos Vossos entes queridos

Adeste Fidelis (ouça aqui a musica)
Adeste Fideles Laeti triumphantes Venite, venite in Bethlehem Natum videte Regem angelorum Venite adoremus, Venite adoremus, Venite adoremus, Dominum
Cantet nunc io Chorus angelorum Cantet nunc aula caelestium Gloria, gloria In excelsis Deo Venite adoremus, Venite adoremus, Venite adoremus, Dominum
Ergo qui natus Die hodierna Jesu, tibi sit gloria Patris aeterni Verbum caro factus Venite adoremus, Venite adoremus, Venite adoremus, Dominum
Posted at 11:20 am by Lights
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