Friday, October 16, 2009
Filhos de Estaline, Owen Matthews

A não perder!



Através dos sussurros de um passado familiar -que remonta à URSS de Estaline -Matthews retrata a essência da vida humana.

A época soviética foi marcada pela violência, pela desumanização e pela tentativa de apagar a existência individual. Fosse através das deportações massivas para os gulag, de assassínios, da morte pela fome, das deslocações de povos inteiros ou da imposição do medo, o Estado, sob a égide de Estaline, fazia questão de governar pelo medo, e o seu sucesso era visível no silêncio das palavras que nem chegavam a ser pensadas. Um outro factor que marcou a época estalinista foi a ingenuidade.

Quando Bibikov, bolchevista convicto responsável por uma fábrica de tractores, é preso pelo NKVD (antecessora da KGB) no final de década de 30, a sua mulher Martha pensa que tudo não passa de engano. Mesmo se os vizinhos já tinham desaparecido nas semanas anteriores, restando apenas um selo da polícia secreta na porta. A purga paranóica de Estaline sobre os que julgava serem seus adversários chegara assim a mais duas pessoas, cuja história poderia ficar escondida no meio da de tantos outros milhões de soviéticos que se refugiaram na teoria do "engano" e da ilusão. A verdade era demasiado sórdida para ser aceite racionalmente.

Só que a história deste casal não caiu no esquecimento dos arquivos, e ainda bem. Bibikov e Martha, que seria enviada para o gulag, são os avós maternos do autor, Owen Matthews.

Jornalista de profissão, o autor utiliza toda a sua capacidade narrativa e interpretativa, aliada à investigação, para fazer uma viagem dentro de si próprio. E a forma como o faz, transportando-nos com ele, revela pelos olhos de três gerações o que foi a sociedade soviética desde os anos 30 até a actualidade.

No centro da viagem está uma história de amor, com todos os seus ingredientes de vida real: felicidade, dor, esperança, desespero, paixão e desilusão. E ao percorrermos as páginas de "Filhos de Estaline" surgem-nos na memória outros livros, como "Os Filhos da Rua Arbat" e "O Medo", de Anatoli Ribakov, "Life and Faith", o épico de Vasily Grossman, "O Império" de Kapuscinski ou o recente "The Whisperers", de Orlando Figes.

Quase todos eles constam da bibliografia de Matthews, que procura na memória escrita e oral os sussurros do seu passado. O autor é, mais do que um mero observador, um participante intermitente, quando nos relata, com pormenores de humor melancólico, a infância e adolescência da mãe, Lyudmila, e da tia, Lenina.

Órfãs de pai e mãe, são as crianças de Estaline, a quem agradecem pela "infância feliz" passada no meio da fome, da doença e dos orfanatos. Filha do Estado e de uma mulher com quem nunca mais se identificará, mesmo após a sua mãe ter saído do gulag, Lyudmila apaixona-se pelo pai de Matthews, um diplomata inglês apaixonado pelo mistério russo. Esse amor, separado pelo Estado soviético, tem tanto de sonho ideal como de cruel realidade, algo que o autor não esconde desde o início. Durante anos os dois tentam quebrar a cortina de ferro.

E, quando o conseguem, rapidamente percebem que não estavam de facto apaixonados um pelo outro. Lyudimila estava enamorada por um ideal de homem recortado dos romances, e o pai de Matthews, Mervyn, personagem ingénua e aventureira, estava obcecado pela honra de uma promessa de reencontro.

A insistência dará origem à vitória de um casamento, consumado pelo nascimento de Matthews e pela desilusão das expectativas. Quando se está apaixonado por um ideal criado na nossa própria cabeça dificilmente amamos a pessoa real que está ao nosso lado.

Quando Matthews percorre a rua Arbat, onde vivia a sua mãe, está a percorrer a sua vida enquanto correspondente da "Newsweek", mas não só. Os seus sapatos pisam os caminhos do passado que aprendeu a aceitar como seus, absorvendo assim os fantasmas.

Numa Rússia onde os indivíduos foram (e talvez ainda sejam) aglutinados em massas de milhões de seres humanos de modo a satisfazer os caprichos do Estado, este livro mostra-nos que no meio de todo o anonimato das massas e do silêncio houve também sussurros, e, mais do isso, houve também gritos individuais que não estavam sozinhos.

Independentemente do resultado final, o seu som já foi uma vitória.

No fundo, através da memória familiar e do seu próprio percurso pessoal, Matthews acaba por retratar a própria essência da vida humana, com todos os seus desvios e desapontamentos, mas sem perder de vista o sentimento de encanto de cada vida humana.
Ípsilon

Posted at 02:54 pm by Lights

 

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